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Em cena: Sophia Andreazza

No #EmCena de hoje temos Sophia Andreazza, uma ilustradora de  23 anos formada em jornalismo pela UNESP Bauru. Nascida em São Paulo capital, é  assistente de arte em uma agência de publicidade em Sorocaba. Morou em Bauru durante a graduação e em Brasília durante seu estágio. Sophia faz trabalhos em aquarela e, mais recentemente, no digital. A artista diz gostar muito da fluidez e da transparência da aquarela, mas também do quanto é um meio flexível ”dá tanto pra fazer pinceladas bem soltas, formas bem livres, quanto detalhes pequenos e linhas muito finas, tudo depende da quantidade de água que você colocar” diz Andreazza. Com relação ao digital Sophia diz gostar pela praticidade e que tem cada vez menos tempo para se dedicar aos desenhos pessoais, entre o trabalho e os ”freelas”. Dessa forma o digital acaba sendo um meio muito bom para treinar. Sobre o desenho em si, Andreazza diz gostar  muito de brincar com linhas, de retratar o corpo feminino sem necessariamente sexualizá-lo, de usar cores quentes e desenhar flores.

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1- Qual foi sua maior inspiração para iniciar as artes em quadrinhos?

Eu sempre gostei bastante de quadrinhos, mas comecei a estudar mais sobre e a fazê-los no final de 2016 e começo de 2017 que foi quando decidi o tema do meu TCC. Meu TCC foi uma grande reportagem em quadrinhos sobre saúde mental e luta antimanicomial, quando eu comecei a estudar para o  tcc entrei em contato com o trabalho do Joe Sacco e me apaixonei, já conhecia uma coisa ou outra mas me aprofundei muito. Depois, comecei a ler uns “clássicos” dos quadrinhos, Maus, Retalhos, Persepólis, me apaixonei de vez pelo trabalho da Alison Bechdel, autora do Fun Home e Você é Minha Mãe? Me identifiquei com o trabalho dela por diversas razões, tanto pelas temáticas das quais ela trata, como família, sexualidade etc, quanto pelo desenho em si, e também pela quantidade de texto (eu tenho o costume de colocar muito texto nos meus desenhos) enfim, enquanto fazia o tcc mergulhei muito no universo das hq’s e comecei a produzir também.

2-Sabemos que hoje em dia a dificuldade de se destacar e conseguir uma editora é muito grande, no momento quais são as suas dificuldades e como voce as dribla?
Olha, é um trabalho de formiguinha, tenho a sorte de trabalhar na área, no sentido que trabalho com design e ilustração, mas para fazer projetos meus mesmo é bem mais difícil, têm de ser produções independentes, tipo no catarse.                     A divulgação tem de ser por meio das redes, é preciso conhecer e se associar com outros artistas, participar de feirinhas pra divulgar os desenhos…eventos maiores, como a comic con e a fiq, sempre priorizam artistas que estão com Hq’s para lançar, então são boas maneiras de lançar nossos trabalhos. Para conseguir editoras de livros infantis, já ouvi de muitos ilustradores que o interessante é ir por exemplo na bienal do livro infantil, procurar editoras que você goste ou que tenham seu estilo e mandar o portfólio na cara de pau.
 
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3- Até que ponto tua arte tem ligação com a sua vida pessoal?
Tem toda a ligação! Eu acho muito difícil fazer uma arte desassociada da minha vida pessoal, meus quadrinhos são todos autobiográficos praticamente, eu me inspiro muito nos acontecimentos da minha própria vida pra produzir. Gosto de retratar situações cotidianas ou momentos especiais de grande beleza que acontecem no dia a dia, e pra isso eu uso minha própria vida. Algumas artes minhas também têm um teor mais político, de militância e isso também tem muita ligação com a minha vida pessoal, enquanto mulher, lésbica e artista independente.
 
4- Qual a tua arte favorita até agora?
Bom, favorita eu não sei! hahahaha.
 
5- Infelizmente a área de criação ainda é extremamente machista, podemos ver claramente nas agencias de publicidade por exemplo, onde o número de diretoras de criação é escasso, como você lida com este cenário?
Bom, não só a minha área é muito machista, o mundo inteiro é, eu sempre achei muito bizarro que pra se destacar, uma artista mulher precisa ser A MELHOR, e ao mesmo tempo a gente vê artistas homens bem medianos ganhando muita visibilidade. Homens sempre têm muito a dizer sobre minha arte e sobre como eu desenho, sobre minha falta de técnica, ou de conhecimento em anatomia, eu me irrito muito com isso, grandes influências que a gente tem no mundo da arte, e dos quadrinhos principalmente, são de homens, então, enquanto mulher eu sempre me vejo na “obrigação” de conhecer, espalhar e priorizar o trabalho feito por outras mulheres.
Nas agências de publicidade de fato pouco se veem mulheres nos cargos de diretoras de criação, trabalhei um tempo numa agência e era a única mulher na criação junto de outros 8 homens. Vendo assim, até parece que não há outras mulheres na área, e isso é mentira. É apenas uma falta de oportunidade, acho que o cenário está mudando pouco a pouco, mas isso que eu comentei de priorizar mulheres é muito importante pra que mude de verdade. Até eu, quando penso numa grande referência de arte por exemplo, automaticamente penso em um cara, quando penso em um especialista, penso num cara, então eu tento conscientemente mudar esse pensamento,  priorizar mulheres, conhecer seus trabalhos, essas coisas.
 
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6- Como é para você ser uma artista independente em uma cidade e um mercado onde a arte não tem tanta valorização?
Nunca é fácil, né? de fato, os artistas aqui têm poucos espaços e oportunidade pra expôr seus trabalhos, por isso que iniciativas como a Feira Beco do Inferno são tão importantes, é um espaço de troca, de arte, de conhecimento, a gente precisa cada vez mais dessas coisas, a cidade está cheia de gente muito talentosa.
 
7- Quais são suas sugestões para artistas que estão começando agora?
Acho que as sugestões são: pratique muito, desenhe todos os dias, isso é muito importante nem que seja só um pouquinho, desenhar não é um dom, é treino. Estude anatomia, mesmo que seja vendo coisas na internet (eu aprendi tudo assim) Conheça novos artistas, se inspire no trabalho deles mas não se sinta menor ou menos capaz por não ter “chegado lá” ainda, por não ser “tão bom quanto” alguém, arte não é sobre competição. Não se estresse muito pra encontrar um estilo, isso é algo que acontece quase sem querer, não se frustre com o pouco alcance de uma postagem ou coisas do tipo, as redes sociais são bem difíceis e a gente faz o que pode. Estude, tente sair da zona de conforto para aprender mais,  divirta-se com a sua arte. Aprenda a observar seu dia a dia, as cores, as formas, e traduza tudo isso em desenhos.
 
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Entrevista por: Tami Dagnes

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